CoringaEaster egg, spoiler, sanidade, loucura. Exposição, superexposição, segurança consigo mesmo, dúvidas. Relacionamentos despreparados, ilógicos, relações parentais, a volta interior da pessoa no tempo, suas realizações e revisitações de si mesmo em tudo o que faz. O arquétipo do louco em uma extensão maravilhosamente proposta. Um louco, um vilão. Uma vítima, junto de um carrasco em alternância de papéis. Apresento-lhes o Coringa!

Esta é uma análise profunda e detalhada sobre o filme todo, ou seja: tem spoilers. Junto análise de personagem, contexto, comparações e analogias. Se não viu o filme, vai ver e guarda este artigo para depois. Vós que sois interessados no filme e pretendes seguir o texto até depois deste parágrafo, abandonem toda esperança do impacto que o roteiro inteligente proporciona.

Quando nasceu o Coringa, e porque estamos falando sobre ele? Engraçado como os arquétipos, cores e signos se espalham no tempo e no espaço carregando em si mudanças de significado. Surgiu como uma caótica contraposição da imperfeição comunicante a uma estrita lógica determinista de um detetive mascarado. A leveza despreocupada com a realidade do palhaço contra o hermetismo lógico do estritamente certo. Na década de 40, fazia todo o sentido. Criativismo* contra racionalismo**, se você prefere. Um prato cheio para ampla identificação!

Pouca gente sabe, entretanto, que o Coringa foi inspirado em Gwynplain, um pleno falcão branco, talvez, em contraposição com seu sorriso forçosamente implantado em sua cara pelo médico Dr. Hardquannon, em sua dureza de não aceitar o contrário. Uma condição sine qua non para quem se opõe a um regime imperialista de Jaime II, o mesmo que reunificou o reino antes de ser deposto pela Revolução Gloriosa, no romance “O Homem Que Ri”, de Vitor Hugo. Anti—herói que foi interpretado por Conrad Veidt em um filme com inspirações expressionistas alemãs em 1928. Uma introdução de classe para qualquer vilão.

Antes que você me pergunte, as cores roxa e verde são provenientes do cartaz do filme alemão, e a cor vermelha do palhaço, da carta do coringa usada como inspiração para o trio Bob Kane, Bill FInger (ambos desenhistas) e Jerry Robinson (roteirista).  Três analogias, o palhaço, o louco, o rebelde. E a lógica de uma carta no baralho, brigando com a lógica da realidade!

Então, a realidade dos filmes começa assim: uma ampla gama de possibilidades. Acontece que o Coringa de Joaquim Phoenix e sua risada são diferentes das do primeiro Coringa das telonas, o “Iluminado” Jack Nicholson, e seu sorriso marcado. A contraposição do Batman gótico de Tim Burton é mais simples, o Jão*** americano (Jack Napier é o nome deste Coringa, e de seu ator) é distorcido por uma casualidade do banditismo ao cair em um poço tóxico e o já bandido fica alucinado por causa de uma casualidade. Não existe amizade entre vilões, que vida dura.  Depois, assassina os bons parentes do herói Bruce Wayne. Tá fácil de entender a maldade de onde vem e separá-la. Ainda.

Depois, temos nosso herói trágico, Heath Ledger, antagonizando o Batman mais maduro de Cristopher Nolan, interpretado por Christian Bale. Mais um ícone, que neste caso, preferiu ser um Coringa já vestido do arquétipo de louco, assimilando o arco de demonstrar que todo o cidadão, se tiver uma chance, se torna “antiético”, ou seja, basta um ato imoral para desmoralizar o indivíduo e a sociedade como um todo. Quase, se não totalmente religiosa a inspiração. Um pecado o ator ter morrido. Um encapuzado ético no seu capuz, mas já vingativo e mulherengo.

Aqui vale um gancho, vindo direto do gibi “Risada Fatal”, onde se discute filosoficamente a loucura do vilão em contraposição a do herói. Que tipo de relação carrasco-vítima existe entre os dois? Um criativo comunicativo sem propósito claro e destino certo, enquanto outro veste o capuz para dar vazão à violência que inconscientemente sente dos outros? Guarde este raciocínio.

Finalmente, chegamos em Joaquim Phoenix. Começamos o tempo com uma volta no tempo, até o final da década de 70, começo de 80. Sem celulares, sem internet, mundo mais simples. Já chamou a atenção do público adulto! Começamos com um palhaço perturbado, que tenta ser bom no que faz, mas sem sucesso. Muito humano, pouco delirante, em seus começos. Realismo é sempre uma excelente opção de se conectar com o público. Imperfeição, também.

Sua risada é realmente uma doença, o Harmatoma Hipotalâmico, e tem esses mesmos efeitos, mas os Coringas anteriores estão mais próximos da Psicopatia, ou seja , lógica de si extrema e nenhuma emoção ou sentimento de compaixão com o outro. Sim, ele realmente ficou mais real.

Sua infância foi difícil, e, spoilers a vista, apanhou quando era criança. Bateram em sua cabeça, e estes traumas, quando feitos na cabeça de uma criança, podem se espalhar pelo cérebro do mesmo, conforme ela cresce. Sua mãe adotiva era psicopática, assim como ela, e a diferença do psicótico para o psicopático é que um não tem emoção e empatia nenhuma em relação ao outro, enquanto o segundo tem… alguma.

O psicótico tem alucinações que o fazem romper momentaneamente com a sociedade. Não, ele não fala sobre política, ou então talvez virasse psicopata de vez. Esse é um ponto positivo do filme, não cai em lugares comuns ou em críticas fáceis. As cartas estão bem embaralhadas o suficiente para alguém ver a beleza da liberação da loucura e seus perigos sem assumir posições estáticas de conhecimento.

O que eu vejo como sendo o ponto central, mais importante, nem sempre positivo, mas profundo o suficiente para ser  levado em consideração é a relação entre o Coringa e o herói. Quem seria o herói do Coringa? Seu ausente pai, que ele imagina ser o pai do Batman.  Mas o até então sempre visto como “santo” pai do Batman trata Arthur Fleck de uma forma mais parecida como o Coringa trata todo mundo, então, senhoras e senhores, pela primeira vez, temos uma crítica a pessoa e à família Wayne na história.

Do ponto de vista da inteligência ser superior a um maniqueísmo barato, achei genial. Estranho é imaginar um Coringa sendo realmente irmão do Batman, e o segundo ser praticamente um almofadinha protegido pelo papai que enche de porrada o irmão. E cujo irmão vai passar em seguida a existência tentando dar o troco!

Em uma foto da mãe do Coringa depois que este descobre indícios de ser adotado, e da mãe ter alucinado a história toda, esta possibilidade fica no ar. E para que definir apenas um conceito a respeito da humanidade e seus defeitos, se a autocrítica pode gerar muito mais considerações interessantes?

*Criativismo: diferente do criacionismo, este termo está sendo utilizado como uma crítica ao pensamento que nada existe como é, tudo se cria.
**Racionalismo: diferente da escola filosófica que avalia todo conhecimento através da razão, este termo está sendo usado de forma crítica a este tipo de exagero.

 

Sobre o autor

Frederico Thompson é Filósofo Quântico Clínico. Atua com a Filosofia de forma terapêutica depois de estudar em instituição religiosa ligada a Universidade de Navarra (Espanha), e de acordo com sua formação de Hipnólogo Ericksoniano e PNL.  Aplica conceitos formados através da consolidação de 14 escolas filosóficas com a Teoria Quântica, Psicologia , Pedagogia, Constelação Familiar  junto com outras duas subdivisões relevantes: a  Ontologia e a  Metafísica.

Ministra palestras autorais abordando temas como: “Objetivos Vivos E Mortos Ao Mesmo Tempo (liderança); “Relacionamentos Quânticos” (dinâmica entre os perfis familiares e comportamentais) ; “Empreendedorismo Quântico” (propósito e dinheiro); “Metafísica Quântica” (conteúdo voltado para profissionais na área da saúde); todas sob essa mesma perspectiva.Trabalha inovando a relação entre microexpressão corporal e arquétipos quânticos.

Participa do corpo docente com a disciplina “Filosofia Quântica” no E- EID relacionando os pensadores da Antiga Grécia, os medievais e contemporâneos agregados a Teoria Quântica.

Faz atendimentos individuais para todos que desejam uma forma diferente de autoconhecimento.

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