Era uma vez um analista integrativo, que de bêbado não tinha nada. Era muito sóbrio, e na verdade, sóbrio demais, até. E como ele vivia de analisar os outros e ajudar pessoas mesmo que seus casos fossem extremos, resolveu ajudar um alcoólatra. Que de bêbado, no parágrafo inicial, só teremos essa informação. Era bêbado. Ponto. E, sem informar mais nada, lhe pergunto: o que você acha dele?

Seria o nosso bêbado inaugural um vagabundo? Alguém traído por uma esposa lasciva, ou alguém sem perspectivas na vida? Não. Pelo contrário, era uma pessoa de reconhecimento e sucesso invejáveis; bem adaptado à sua profissão e financeiramente abundante. Vivia da sua imagem, na verdade.

A psicologia, no melhor de seus racionalismos logicistas, considera esta pessoa um modelo. Não vê nada de errado nele, apenas o classifica como alguém com baixa auto-estima, inserindo neste conceito amplo, uma infinitude de emoções e oferecendo remédios como “cura”. Pode ser que tenha depressão, bipolaridade, mas simplesmente remédios já resolvem. E se nada disso resolver, a eventual culpa por algo que der errado para tal pessoa é do psicólogo, que era ruim. Nada de contato, nada de interação. Lógica. Pura. E só.

Pois um dia, este bêbado encontrou um analista integrativo. O analista, em um bom dia e em um dedo de prosa, logo viu que aquela pessoa estava perturbada. Não a julgou, nem a depreciou. Nem entendeu tudo o que estava incomodando, de primeira. Pegou uma palavra fora de lugar, uma pausa muito grande entre uma conquista e outra, e lá enxergou um pedido de ajuda.

Evoluiu a conversa para de quantas formas uma pessoa poderia sofrer com um quadro daqueles, e o bêbado logo se sentiu confortável para falar de si. Logo foi falando que em palco, sua vida era fácil, fluía! As pessoas o entendiam, havia sincronia, união, afeto. Mas entender a família, entender cada um, o que queriam, porque eram diferentes, porque não havia tempo para todos? Porque era tão difícil estar junto? Porque tanto trabalho em alguns momentos, porque as esposas não eram sempre as mesmas?

Questões que pareciam prosaicas em sem resposta, habitualmente, pareciam se agigantar, mas ninguém falava nada a respeito. E o bêbado decidiu deixar o álcool e começar as sessões. O analista, feliz, alertou que tudo bem com as sessões, mas paciência com o álcool.

Entre um tropeço e outro, o bêbado foi entendendo que, na verdade, delegava à birita tudo o que queria saber sobre o seu futuro e não sabia. Tudo o que queria resolver e não resolvia. Sem perceber quer as coisas não tem uma maneira fácil de ser resolvida para ninguém. Exceto para quem quer te vender alguma coisa! Tudo o que via no outro de diferente e comparava com o que não era, sem ver quem era e o que isso implicava. E essa foi a jornada que o analista o ajudou a empreender. Mas ainda faltava alguma coisa.

E de repente, o analista entendeu o que faltava. E resolveu ajudar a necessidade onde ela estava, na vida corrente, e não apenas em sua filosofia ou ciência, por mais profunda que fosse. E então, resolveu aceitar um convite para ir tomar um café. O café virou aperitivo, e nos aperitivos, chegou a vez de um drink ou outro.

Aí, chegou a hora da virada.  O bêbado sentiu vontade de beber, mas estava incomodado de fazer isto na presença do analista. O analista, entendendo o desejo e o impasse, falou que iria beber com ele, desde que topasse um desafio. Toda dose que o bêbado fosse tomar, ele teria que dizer em voz alta algo que o decepcionava. E depois de tomar, dizer o que aquilo o tinha feito aprender e como isso o credenciava a ser genial, exatamente naquilo que o incomodava.

E assim foi. O que o analista não disse, é que a cada lamentação alcoólica, e sua consequente dose de cachaça, o analista tomava duas. E não inventava lamentações, não, falava chateações, muitas vezes, mais constrangedoras. Não só mais esquisitas que o bêbado, mas mais constrangedoras que a maior parte da população. Bebeu e falou tanto, que até gole de pimenta de jaca ele tomou, por engano. Porque a garrafa parecia garrafinha de whisky.

Chegou a certo ponto, em que o bêbado realmente entendeu o ponto de tudo aquilo. Percebeu que não só o que poderia fazer, ter feito, ou quão complexas são habitualmente as coisas, que teve uma visão analítica da vida. De tanta análise, e bebida, fi ou totalmente entediado de ficar bebendo e reclamando. E a bebida, simplesmente começou a perder a graça. No mesmo ponto em que o analista estava completamente bêbado.

E foi assim que, desta forma nada convencional, a análise terminou de fazer o seu efeito, de tirar o incômodo mais premente. E o bêbado, voltou a ser apenas um ator com complexidades, talvez chatas, mas fáceis de entender.